Os gigantes de Cabelo Seco querem mudar o futuro em 2014

Encerramos o ano de 2013 com uma plataforma comunitária, municipal, nacional, continental e internacional inimaginável quando iniciamos numa pequena roda de cantos na pracinha do Cabelo Seco em fevereiro de 2009. Após centenas de ações realizadas no ano mais intenso e inovador deste primeiro ciclo, registradas no calendário artístico-pedagógico de 2014 ainda no forno, estamos nos dedicando nas próximas seis semanas a refletir sobre os avanços de 2013 para identificar as pistas sobre o próximo ciclo de cinco anos, na busca de uma Amazônia autônoma e sustentável, na sua própria prática.

AfroMundi apresenta 'Raizes e Antenas' no Patio Maraba na Caravana do Festival Beleza Amazonica para inspirar debate sobre 'que Amazonia vai nos sustentar'.

Os atuais micro-projetos de música Latinhas e Sopros de Quintal, dança Cia AfroMundi, cinema Cine Coruja, Rabeta Vídeos, biblioteca Folhas da Vida, cursos de formação (Inglês Dialógico, Rio de Violões e Teatro Comunitário), e jornalismo juvenil, coordenados pelos jovens arte- educadores em formação, culminaram no lançamento mundial do CD Amazônia Nossa Terra, na participação em Paris da jovem música Évany Valente como voz da Amazônia no VIII Congresso Mundial de Teatro Educação, o lançamento do Barracão de Cultura na Semana de Dança Educação com Dr. Ralph Buck, Presidente da Aliança Mundial pelas Artes Educação, e no segundo Festival Beleza Amazônica. 

Lembramos no dia após a morte de Nelson Mandela, um dos principais formadores de Dan Baron, coordenador artístico-pedagógico do projeto, nos anos 90, e grande inspiração para o Rios de Encontro, “não bastam ações boas. Tem que evoluir uma visão grande onde caibam todos, e transformar o imaginário”. Hoje, morador do Cabelo Seco, o coordenador do projeto continua: “Escuto que o Rios de Encontro assusta as pessoas pelo tamanho de seu programa e suas ideias, por sua qualidade artística e pedagógica, e sua duração. Mas o projeto nos assusta também! “.

“Por exemplo”, explica Dan, “muitos aqui em Marabá sabem hoje que a Vale foi votada a pior empresa no mundo por sua violação dos direitos de seus trabalhadores e sua danificação ao meio ambiente, e questionam a industrialização da Amazônia. Mas não pedem um debate público. Claro, tem medo de se manifestar, porque a Vale não somente montou um sistema de espionagem em Marabá, mas está bancando todas as instituições da região, e qualquer questionamento arrisca ser exilado do mercado de trabalho. Numa região onde a fome e a memória da fome são tão presentes, esta ameaça é forte. Mas mais profundamente, acreditam que o futuro já foi decidido. Que são pequenos e desunidos demais diante dos gigantes. Então se calam ou argumentam que a Vale tem que assumir sua responsabilidade social e ampliar o tamanho das fatias do lucro da mineração da região”. Dan sorri. “E bem na beira da celebração do Centenário, no maior palco da historia de Marabá, um pequeno grupo de jovens artistas do Cabelo Seco decide independentemente em devolver o convite do Secretário de Cultura para tocar e transformar as ruas e pracinha de seu bairro em um palco independente de qualquer político e mineradora devastando a Amazônia. Questionaram a própria industrialização da Amazônia! Que coragem!”.

“Levamos sustos pela ousadia de ações que brotaram desta coragem e desse contexto. Depois do cruel assassinato de Éverton Sousa dias antes de nosso festival de 2012, integramos uma primeira ‘bicicletada pela vida’ no festival e experimentamos com vídeos na rua com sorteios de livros doados pela UNESCO, e com cursos de trocas de saberes populares e formais na universidade federal, nas escolas vizinhas e no bairro. Em 2013, estas sementes brotaram em cinco bicicletadas intercomunitárias com sua própria pedagogia de responsabilidade social (em particular para meninos em alto risco), em nosso Cine Coruja de filmes independentes em sessões livres e para jovens, em nossa biblioteca Folhas da Vida ao ar livre, e em nossa própria Universidade Comunitária dos Rios. A Amazônia é tão fértil!”.

Em realidade, esta fertilidade é, na avaliação do projeto, uma mistura potente de necessidades especiais sociais e da riqueza e da generosidade da cultura popular da região amazônica. A grandiosidade e beleza das ideias do Projeto e a urgência de sua intervenção socioeducativa a partir das artes na busca de um debate sobre a industrialização da Amazônia motivaram projetos de 30 países a colaborar no financiamento do Festival em 2013. “Isto impressionou os jovens e pais no projeto”, explicou Manoela Souza, gestora do Rios de Encontro. “Sentiram a solidariedade, a preocupação e a presença do mundo, gritando por um debate imediato.”

“Este reconhecimento mundial do projeto é justo”, disse Zequinha Sousa do Cabelo Seco, ele mesmo reconhecido como mestre de cultura popular por sua atuação no Rios de Encontro. “Quando nós coordenadores adultos estávamos no encontro da Rede Brasileira de Arteducadores no Rio Grande do Sul em Outubro, os jovens assumiram a responsabilidade inteira pela continuidade de todos os projetos e suas oficinas. Que melhor prova de que o projeto está cumprindo sua palavra e princípios?”.

Na semana passada, na formatura com todos os gestores e participantes dos microprojetos, a contribuição de cada pessoa foi celebrada. Mas duas jovens coordenadoras se destacaram por sua criatividade, persistência, generosidade e liderança. Évany Valente, co-coordenadora do Cine Coruja, Latinhas e Sopros de Quintal, assistente no ensino de violão e estudante excelente em todos os cursos de formação, e Camila Alves, arteducadora de dança comunitária e infantil e coordenadora da Companhia de Dança AfroMundi Pés no Chão, que criou seu primeiro espetáculo Raízes e Antenas para o festival, choraram ao receber seu certificado e prêmio de reconhecimento Jovem Nelson Mandela.

“Nunca teremos o poder financeiro da Vale nem o poder político da Presidente do Brasil”, Dan emocionou na cerimônia na Casinha de Cultura, “mas nunca terão a grandeza de nossas ideias ou de nossa ética de cuidar do futuro de todos, que vocês duas praticam. Cantam que ‘nenhum gigante vai desterrar a nova flor da Amazônia’ no nosso CD. O Prefeito e Secretário de Cultura e o Presidente da Associação de Moradores aqui no Cabelo Seco ainda não valorizam vocês, mas o apoio nacional e internacional para nosso projeto mostra que o mundo já está reconhecendo vocês todos como gigantes. Vocês vão sensibilizá-los!”.

A caravana de Beleza Amazônica encerrou o ano com inovações: levou músicas ao vivo do CD ‘Amazônia Nossa Terra’ e o espetáculo ‘Raízes e Antenas’ como contribuições a formação de 180 professores em Nova Ipixuna e como intervenções no shopping Pátio Marabá, duas ações juvenis para incentivar um debate sério sobre sustentabilidade em 2014. Rios de Encontro levará a Caravana a Londres, New York e Porto Alegre antes de voltar em fevereiro com uma nova proposta de formação e colaboração para encantar Marabá. Fiquem de olho!

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