Cabelo Seco transforma tragédia em sementes de esperança

Uma semana depois dos assassinatos do Renan Costa de Sousa e do Douglas da Silva de Xavier no dia 13 de abril, o projeto sociocultural Rios de Encontro já estava realizando três novos passos inesperados, transformando tragédia em uma plataforma de esperança e determinação. Um mês depois, os jovens em maior risco estão assumindo a liderança de uma nova fase do projeto.

Rabetos Vídeos concluem sua primeira semana de aulas de violão com mestre Zequinha.

Rabetos Vídeos concluem sua primeira semana de aulas de violão com mestre Zequinha.

A entrada na roda de Violões da Vida do mestre Zequinha do micro-projeto mais novo, Rabetas Vídeos, e da percussionista Elisa Neves do micro-projeto fundador e mais conhecido, as Latinhas de Quintal, integra alguns dos jovens considerados mais em risco e mais vulneráveis no bairro, incluindo o irmão do Douglas. Mas estes jovens já tem um ano no projeto Rios de Encontro, estão filmando e editando seus próprios primeiros vídeos e fazem parte da coordenação da Bicicletada da Vida. “Somos um coletivo comprometido”, afirma Brendon, “conscientes sobre as causas da violência aqui e no pais – a exclusão, a pobreza, e a violação de nossos rios e florestas. Violência gera violência. Sabemos o que temos que mudar.”.

Elisa das Latinhas de Quintal troca percussão para violão com mestre Zequinha. Ela pretende montar um curso de verão.

Elisa das Latinhas de Quintal troca percussão para violão com mestre Zequinha. Ela pretende montar um curso de verão.

Elisa já tem seis anos no projeto, coordenou a recepção de uma a bicicletada ao seu ‘novo’ bairro Liberdade no ano passado, e esta aprendendo violão como preparação para ministrar seu primeiro curso piloto de percussão em maio. “Quero ser uma percussionista profissional, e já me sinto qualificada para compartilhar tudo que aprendi.” Elisa se integra com outros jovens professoras Evany Valente (violão e sopros) e Camila Alves (dança) da Universidade Comunitária dos Rios para oferecer cursos para o primeiro Programa de Verão em julho.

Rafael Varão (coordenador da biblioteca Folhas da Vida) e Matheus Sá (Latinhas de Quintal) estudem o primeiro boneco do novo jornal comunitário Nem Um Pingo que vão  lançar na semana depois do Dia das Mães.

Rafael Varão (coordenador da biblioteca Folhas da Vida) e Matheus Sá (Latinhas de Quintal) estudem o primeiro boneco do novo jornal comunitário Nem Um Pingo que vão lançar na semana depois do Dia das Mães.

Iniciou na última semana também a idealização do jornal comunitário Nem um Pingo, por jovens coordenadores Rafael Varrão e Matheus Sá. O projeto surgiu em 2012 como uma iniciativa da Carolayne Valente das Latinhas de Quintal e da Cia AfroMundi. “Queremos continuar com entrevistas explosivas,” explica Matheus, “que tocam questões sensíveis que ninguém quer mencionar. Nenhuma liderança aqui falou sobre as mortes de Renan e Doglinho. Desaparecem no silêncio de sofrimento e medo. O jornal vai falar.” Rafael continua: “O jornal vai também alertar a comunidade sobre o projeto violento da Vale. Ninguém aqui foi consultado sobre a construção da hidroelétrica. Temos direitos na constituição. Cade?”

Latinhas de Quintal cantam Amazonia Nossa Terra na Feira de Sementes Tradicionais.

Latinhas de Quintal cantam Amazonia Nossa Terra na Feira de Sementes Tradicionais.

Domingo passado, todas as jovens coordenadores da Universidade Comunitária dos Rios participaram na primeira Feira de Sementes Tradicionais, convidados pela UNIFESSPA que quer aproximar saberes e culturas populares com conhecimento acadêmico. Foram o único projeto urbano e juvenil convidado. As Latinhas de Quintal e AfroMundi apresentaram obras agora bem maduras, e a biblioteca Folhas de Vida apresentou um poema e uma letra dedicados ao projeto da Maria da Silva, colaboradora do projeto e eco-pedagoga da UFPA, assassinada em maio de 2011.

Viviane do projeto Biblioteca Folhas da Vida le o poema Vento Norte na Feira de Sementes Tradicionais.

Viviane do projeto Biblioteca Folhas da Vida le o poema Vento Norte na Feira de Sementes Tradicionais.

“Os jovens do projeto ficaram impressionados com o fato que Brasil é o maior consumidor de agro-tóxicos no mundo e foram elogiados como sementes ecológicos exemplares,”, disse Dan Baron, coordenador do projeto, “e tem uma ética que poucos percebem, por causa do preconceito que os cercam. Dividem tudo, amam e cuidam da natureza, e atras de seu silêncio e aparente timidez, tem a coragem de inovar e ensinar. Sábado passado, entrevistaram jovens de Barcelona e Rio de Janeiro que passaram três meses no Rio Araguaia, numa balsa de materiais reciclados. Ontem, editaram seu primeiro vídeo. Hoje, estão discutindo como transformar a balsa doada em uma ilha de edição e vídeoteca, Os Rabetos Vídeos tem ética e a coragem de se questionar e questionar o mundo que os violentou.”

Rios de Encontro crescem na Feira de Sementes Tradicionais

Enquanto as jovens lideranças preparam seus cursos de verão, Dan Baron foi para Brasilia para compartilhar a proposta de protagonismo juvenil num seminário nacional da Confederação dos Trabalhadores Agrícolas. Recebi convites do Distrito Federal, Rondônia, Maranhão e Acre para realizar cursos de formação sobre estas pedagogias que cultivam ousadia ética.

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