Jovens de Cabelo Seco premiados para fomentar rede nacional de criatividade

Fomos avisados neste semana que a Rede Brasileira de Arteducadores (ABRA) na qual Rios de Encontro faz parte e preside, foi a única do Pará das dez redes nacionais contempladas pelo prêmio ‘Cultura de Redes: Fomento a Redes Culturais no Brasil’, do Ministério da Cultura. Com esta notícia, Rios de Encontro tem condições excelentes para financiar a colaboração de seus jovens arte educadores com outros projetos no Brasil, como protagonistas amazônicos de um novo projeto ‘Redes de Criatividade’, que culminará com o fórum internacional, ‘Rios de Criatividade’, tema do V Festival Beleza Amazônica em 2016.

Carol Souza (14 anos), co-coordenadora da bilioteca Folhas da Vida e do grupo de percussionistas contra violência contra mulheres e meninas, Roupas ao Vento, experimenta com celular para narrar sua experiência na premiação do Itaú-Unicef em Belém.

Carol Souza (14 anos), co-coordenadora da bilioteca Folhas da Vida e do grupo de percussionistas contra violência contra mulheres e meninas, Roupas ao Vento, experimenta com celular para narrar sua experiência na premiação do Itaú-Unicef em Belém.

“Este novo projeto premiado ‘Redes de Criatividade’ tem dois focos interligados”, explica Dan Baron, coordenador do Rios de Encontro. “A transformação do celular (Android) em ferramenta criativa, e jovens artistas como transformadores criativos dele, em rede. Pergunte para qualquer mãe ou professor. Neste momento, o celular domina a vida e até o sonho da grande maioria dos jovens do planeta. Já se tornou uma ditadora de prazer e inclusão necessária social. Consegue até padronizar o sorriso mundialmente através do ‘selfie’ e estampar a cara da época com a expressão ‘indiferente’.”

“Em menos de um ano, muitos jovens no Rios de Encontro e na ABRA estão cada dia mais presos ao whatsapp e ao facebook. Acordam exaustos com sono cortado, mal conseguem sustentar minutos de motivação ou interesse social. Mesmo reflexivos e lúcidos sobre como estão controlados pelo medo da crueldade dos grupos sociais, nem conseguem o transformar ou se afastar. Acessam qualquer novo post ou informação a todo segundo, mas mal conseguem lembrar o que foi falado numa conversa ‘ao vivo’. Observo jovens e até adultos na Orla, um rio de isolados, sem conversa! Nossa prioridade hoje é criar uma cultura que usa o celular para nosso bem humano, para evitar a morte do social.”

Cia AfroMundi, AfroMundi-Mirim e Roupas ao Vento se retratam antes de apresentar no encontro 'Arte na Escola' na Unifesspa.

Cia AfroMundi, AfroMundi-Mirim e Roupas ao Vento se retratam antes de apresentar no encontro ‘Arte na Escola’ na Unifesspa.

Como coordenador geral da ABRA, Dan apresenta a visão da Rede: “Desejamos transformar o celular e internet em ferramentas comunitárias de intervenção, imaginação e criação coletiva e social. Desejamos criar colaborações onde cada jovem e família se transformam em pulso eco-cultural comunitário, não seguidores de fama sem ética e dos valores do consumo do mercado. Mas temos um desafio grande! O apelo desta micro-tecnologia e sua capacidade instantânea de comunicar e acessar informação são bem mais avançados do que a cultura colaborativa e ética de nossos projetos atuais. E se enraízam no solo das sequelas psicoemocionais de exclusão social. Vamos precisar experimentar e inventar uma nova cultura, que afirma as energias e direitos democráticos da vida, e integra as novas micro-tecnologias no seu coração!”

Dan Baron e Camylla Alves (19 anos), coordenadora da Cia da Dança AfroMundi, ambos integrantes da ‘Universidade Comunitária dos Rios’ (UniComRios) que oferece oficinas, cursos, festivas e projetos de formação em cultura afro-contemporânea e amazônica em Cabelo Seco, viajam hoje para participar no encontro PalavraMundi, na Universidade Estadual de Santa Catarina (UDESC), ao fomentar esta ‘rede de criatividade’. Os dois artistas e gestores são convidados para demonstrar e explicar uma nova lógica de projetos sociais universitários, que substitui o objetivo de extensão do centro acadêmico à periferia carente pelo objetivo de troca e colaboração entre saberes formais e populares.

UniComRios hoje está chamando atenção de redes culturais e sociais no mundo, por seu projeto de educação integral, enraizada nas artes e a cultura popular, premiado no mês passado pela Unicef. Camylla dançará o solo ‘Raízes e Antenas II’ da Cia AfroMundi para demonstrar como a dança já mudou sua vida.

Camylla dança 'Raízes e Antenas II' em Belém, 2014, exemplo de alfabetização cultural e emocional.

Camylla dança ‘Raízes e Antenas II’ em Belém, 2014, exemplo de alfabetização cultural e emocional.

“Tenho certeza”, explica Camylla, “que a escola do futuro vai reconhecer a dança como linguagem avançada de ensino e aprendizado. Tem milhões de pessoas como eu, que reflito, raciocino e expresso, a partir da dança, mas são forçadas sofrer um sistema que só valoriza a cabeça, a palavra escrita, a caneta. Adoro escrever, uso matemática todo dia na coreografia, mas sofri uma exclusão violenta no ENEM no mês passado. Para mim, a dança me da acesso às memórias de minha cultura ancestral e saberes do povo ribeirinho. Quando danço, integro uma leitura profunda com todos meus sentidos sobre o mundo, e comunico com complexidade ao mundo. A educação formal me machuca e violenta todos meus direitos de cidadania.”

No encontro, Dan Baron colocará estas reflexões num contexto internacional, as relacionando com as políticas mais avançadas dos Ministérios da Cultura e da Educação no Brasil e no mundo. Ele acompanhou Camylla na preparação do ENEM, e descobri de repente que a maioria dos jovens tem dificuldades com matemática e português. “Nossos jovens artistas e arte educadores são premiados nacionalmente mas sofrem exclusão de sua própria inteligência todo dia na educação formal. Alguns nem conseguem sair do ensino fundamental. Pior, sofrem mais uma violência na rua, principalmente os meninos, os primeiros suspeitos de assalto ou trafico, perseguidos e condenados pela Polícia Militar como ‘marginais’.”

Rerivaldo Mendes (19 anos) de Rabetas Vídeos capacita Antônio Soares nas técnias de edição e criação de vídeo.

Rerivaldo Mendes (19 anos) de Rabetas Vídeos capacita Antônio Soares nas técnias de edição e criação de vídeo.

Dan citará o jovem Antônio Soares (18 anos) de Cabelo Seco, premiado com mais dois jovens do Rabetas Vídeos, liberado inocente depois de ficar preso por dois meses. Durante este período ele foi exposto numa matéria de jornal local com uma foto montada pela polícia. A diretora de sua escola levou essa matéria de sala em sala para ilustrar o caminho errado que os outros alunos não deveriam seguir.”

“Além de perder um ano escolar, Antônio sofre as sequelas desta difamação e violentação de seus direitos humanos. Conheço ele desde seus 11 aninhos de idade. Ele é sensível, inteligente e talentoso. Mas foi julgado e condenado antes de comparecer perante o juiz. Não foi compensado para os dois meses de extrema violência institucionalizada que passou, nem recebi nenhuma desculpa formal, da diretora, da polícia ou do jornal, para limpar seu nome. Agora, ele é bolsista no Rios de Encontro, produzindo vídeos de jornalismo investigativo que mostram seu compromisso com o meio ambiente e direitos humanos. Ele está se alfabetizando e quer transformar tudo com o celular. Com calma, ele pode se transformar em um grande produtor!”

Rios de Encontro é um de centenas de milhares de projetos que hoje aparecem no radar nacional e mundial, mais ainda o único projeto de Marabá em 2015 para ganhar o prêmio ‘Educação Integral: Aprendizagem que Transforma’, do Itaú-Unicef. “Isso é um problema grave”, reflete Dan Baron. “Significa que a população de Marabá não está recebendo uma educação capaz de cultivar a autoestima e auto-confiança para falar ‘não’ quando pensam ‘não’. Entende muito. Quer preservar o Rio Itacaiúnas da degradação que está matando seu nascente e o Rio Tocantins da construção da hidrelétrica que vai desequilibrar a maior tecnologia no mundo, a Amazônia, e infernizar a vida popular. Mas se cala, ou pior, fala ‘sim’ diante a formação privilegiada e suprema lucidez das mineradoras, governantes e donos da terra, já sofrendo conseqüências massacrantes de exclusão e corrupção.

“Com este prêmio,” conclue Dan, “Camylla, Antônio e os outros coordenadores vão encontrar jovens artistas no país inteiro. Juntos, vão colaborar para inventar um rede de criatividade que utiliza novas ferramentas para avançar a educação e garantir os direitos socioambientais de todos. Quando recebem jovens comunicadores de 60 países aqui no festival do final de 2016, terão as ferramentas e confiança para divulgar seu ‘não coletivo’ nas redes sociais e nos meios de comunicação.”

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