Jovens se transformam em formadores do futuro, em Marajó

Alanes Soares, Elisa Neves e Rerivaldo Mendes tocam tambores da liberdade no novo espetáculo 'Margens Vitais' na noite cultural da Olimpíada de Ciência na Floresta.

Alanes Soares, Elisa Neves e Rerivaldo Mendes tocam tambores da liberdade no novo espetáculo ‘Margens Vitais’ na noite cultural da Olimpíada de Ciência na Floresta.

O projeto eco-cultural e socioeducativo Rios de Encontro, enraizado na comunidade Cabelo Seco desde 2008, voltou ontem após 10 dias em Marajó, realizando a primeira etapa de colaboração com professores, alunos e gestores culturais dos Estados Unidos e uma escola ribeirinha na margem do Rio Anapú, sediado pelo Museu Emílio Goeldi na sua estação científica em Caxiuanã. No meio dos rios e das florestas ameaçadas, os cinco jovens e dois adultos arte educadores participaram numa troca de conhecimentos na oitava ‘Olimpíada das Ciências na Floresta’, com tema Linhas Vitais: Águas, Ecologia e Cultura. A viagem culminou com uma segunda apresentação de três espetáculos de dança-teatro, no Teatro Experimental Waldemar Henrique em Belém, no dia 30 de novembro, premiados pelo prêmio Novos Talentos da Funarte-MinC.

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Camylla Alves, Lorena Melissa, Alanes Soares, Elisa Neves e Rerivaldo Mendes se juntaram com gestores do Rios de Encontro, Dan Baron e Manoela Souza, para realizar um curso de formação para 35 professores de 12 escolas ribeirinhas de Portel e Melgaço em Marajó. Paralelamente, realizaram quatro oficinas de dança afro-contemporânea e percussão de raiz para 25 alunos da escola EEEF São Sebastião, e 8 alunos e 5 professores de ciência, tecnologia, engenharia e matemática da escola Fairchild Wheeler, e gestores do Museu Marítimo e de Creative Connections, de Connecticut nos Estados Unidos. As oficinas criaram a base de um novo espetáculo ‘Amazônia Nos Irriga’, apresentado numa noite cultural no dia 27 de novembro, a ser desenvolvido em Connecticut, na segunda etapa da colaboração, em abril de 2017.

Cientista mundial Professor Lola explica ã Rerivaldo Mendes como arvores respiram, criando as chuvas para irrigar o mundo.

Cientista mundial Professor Lola explica ã Rerivaldo Mendes como arvores respiram, criando as chuvas para irrigar o mundo.

Rerivaldo Mendes (21 anos), coordenador do Rabetas Vídeos Coletivo, foi selecionado para documentar a colaboração entre jovens da Amazônia e dos EUA, saindo com Dan Baron logo após uma apresentação no Dia da Consciência Negra. “Fiquei encantado com a beleza de nossa Amazônia, viajando por dois dias nos rios de Guamá e Anapú para chegar à Estação Científica em Caxiuanã. Me marcou muito a sensibilidade ribeirinha dos jovens de São Sebastião e a disciplina dos jovens cientistas de Bridgeport, Connecticut, mas nunca vou me esquecer da caminhada no meio da floresta em Caxiuanã com o Professor Antônio Lola da UFPA. Impossível imaginar que um dos cientistas mais reconhecidos do mundo por sua pesquisa sobre ecossistemas tropicais, falando com tanta humildade e carinho sobre as causas da grave seca que o desmatamento causa. Mudou toda a minha compreensão sobre uma árvore, que hoje vejo como um ser, sensível e extraordinário, que na Amazônia gera a chuva que sustenta o mundo. Choveu nenhuma vez durante nossa estadia! Ele, um grande advogado para energia solar, passou para nós jovens sua motivação para priorizar energia solar.”

AfroMundi apresenta sua pesquisa em dança afro-brasileira aos alunos das Américas numa oficina de criação.

AfroMundi apresenta sua pesquisa em dança afro-brasileira aos alunos das Américas numa oficina de criação.

Alanes Soares (17 anos), coordenadora da biblioteca comunitária Folhas da Vida, participou também como percussionista nas apresentações dos ritmos de raiz nas oficinas de formação de professores e de criação intercultural. “Agora, depois de três dias e noites nos rios, sei o que é a Amazônia! Adorei a oportunidade de aprofundar minha formação como oficineira de uma educação que integra a inteligência plástica, musical, teatral, visual e literária. A criação de uma confiança coletiva e comunitária para aprender trocar histórias da vida a partir de canto, teatro, dança, pintura e escultura, mudou completamente minha visão sobre educação. AfroMundi sensibilizou com seus espetáculos ‘Lágrimas Secas’, ‘Nascente em Chamas’ e ‘Margens Vitais’, centímetros longe da plateia, bem na sala de aula. Mas fiquei fascinada com a criação de uma coreografia que dramatizou a complexidade da Amazônia! 50 pessoas que nunca dançaram uma narrativa, apresentaram desmatamento, poluição, pesquisa e ação ecológica comunitária, transformando séculos de timidez em dança unida! Simbolizou muito! Vou trazer tudo isso para nossas crianças nos bairros de Marabá!”.

Alanes, Elisa, Lorena e Camylla de Rios de Encontro ajudam na formaçäo dos professores das escolas de Potel e Melgaçu nas Olimpíada de Ciência na Floresta.

Alanes, Elisa, Lorena e Camylla de Rios de Encontro ajudam na formaçäo dos professores das escolas de Portel e Melgaço nas Olimpíada de Ciência na Floresta.

Além de apresentar dois espetáculos já premiados e atuar como oficineiras na formação de professores, Camylla Alves e Lorena Melissa da Cia AfroMundi apresentaram seu novo espetáculo em construção, ‘Margens Vitais’. Fruto de pesquisa realizada com povos indígenas e desenraizados, em Hong Kong e Nova Zelândia em Abril de 2016, ele integra percussão de raiz com dança afro-contemporânea. A nova coreografia inspirou tanto os integrantes de Marajó, quanto os alunos e professores dos EUA. “Hoje, depois de oito anos no projeto,” disse Camylla (21 anos), “tenho clareza sobre a relação entre o resgate de nossas raízes e a criação de uma nova identidade comunitária, comprometida com a sustentabilidade ética da gente e do mundo. Igual a uma árvore. Cortando a raiz, para de respirar, semear e irrigar o futuro. Nesta colaboração internacional, consegui explicar para mim mesmo como a dança expressa, narra, cicatriza, transforma e motiva, tudo numa vez. Mas nunca imaginava seis coreografias acontecendo no mesmo espaço, simultaneamente! Acabamos com o medo de experimentar em público! Transformamos educação de medo em cultivo de confiança. Sem palavras!”

AfroMundi e Tambores da Liberdade estreiam 'Margens Vitais', nas Olimpíada de Ciência na Floresta em Caxiuanã.

AfroMundi e Tambores da Liberdade estreiam ‘Margens Vitais’, nas Olimpíada de Ciência na Floresta em Caxiuanã.

Lorena Melissa, colega de Camylla desde 2006, se surpreendeu com sua capacidade de se tornar percussionista e oficineira. “Era tímida, ainda sou um pouco!”, ela ria, “mas agora sou prova que cada ser humano desenvolve uma base musical e percussiva na sua evolução humana, na gestação materna. Foi bonito ver professores se tornando crianças de novo, recuperando sua criatividade, alegria e confiança! Viraram cantores, atores e dançarinos, e danados! E encontrei minha confiança como oficineira nas rodas de contação de história que ajudei a coordenar. Agora, com sensibilidade e consciência ecológica, a gente percebe o potencial amazônico para enfrentar os grandes projetos hidroelétricos. Já fiquei indignada quando visitamos Belo Monte. Hoje, depois de vivenciar as florestas de Caxiuanã e todas as espécies de vida amazônica na bosque do Museu Goeldi em Belém, entendo que a questão ecológica não é só opção. É nosso futuro.”

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“Somos o futuro, sim,” declarou Elisa Neves (19 anos) na conversa após da apresentação no Teatro Valdemar Henrique em Belém no dia 30 de novembro, “mas é banal falar isso sem ter um projeto coletivo, que denuncia o autoritarismo, em casa, na escola, na comunidade, nos governantes, e que anuncia o cuidado e o respeito para tudo, que começa dentro de cada uma de nós. Nas oficinas de formação e criação, vivenciamos esta transição transformadora, que sinto quando pego meu Djambé. Vi isso também nos jovens e professores de São Sebastião e Bridgeport, Connecticut, quando arriscaram largar cadeiras, canetas e palavras, e optaram em pegar baquetas ou se entregaram nas coreografias, que pesquisam e transformam ao mesmo tempo. Transformamos tanta violência e autoproteção na gente, em autodeterminação unida! Não basta só gritar ou pichar ‘Fora Temer! Fora Trump!’. Temos que juntar todas as gerações num projeto que transforma as causas da corrupção em um novo sonho, não só de vermelho ou verde, mas de todas as cores e tons do planeta, enraizado no cuidado de seus rios e florestas.”

Camylla Alves apresenta Nascente em Chamas no Teatro Experimental Waldemar Henrique em Belém, no dia 30 de novembro.

Camylla Alves apresenta Nascente em Chamas no Teatro Experimental Waldemar Henrique em Belém, no dia 30 de novembro.

“Juntos, em Caxiuanã, sem pretensão, unimos a ciência da floresta amazônica com a ciência do estado mais rico nos EUA,” disse Dan Baron, diretor artístico da colaboração entre o Museu Goeldi e Museu Stepping Stones. “Criamos um novo símbolo, que mexe com o atual imaginário de pessimismo, medo dos governantes autoritários e do aquecimento global irreversível. Jovens das duas Américas, unidos, co-gestionando um novo projeto que abraça e integra nossas raízes e antenas. Nenhum dos jovens que participaram das Olimpíada da Floresta, sabiam quem era Fidel Castro quando faleceu. Mas entendem na pele que o novo Presidente dos EUA ameaça o futuro do planeta. Em seus comportamentos cotidianos, buscam qualquer clareira para se refugiar da nova ditadura neoliberal atual, da ganância autoritária. Numa floresta anônima e antiga, em Marajó, no meio de mais de 2.500 espécies de vida, enraizada em saberes afro-indígenas, encontraram uma clareira. Vamos ver o que vai brotar desta união das Américas.”

Jovens arteducadores encerram a noite de dança contemporânea e ritmos de raiz com o lançamento do movimento eco-cultural 'Rios de Criatividade', tema do 2016 Festival Beleza Amazônica.

Jovens arteducadores encerram a noite de dança contemporânea e ritmos de raiz com o lançamento do movimento eco-cultural ‘Rios de Criatividade’, tema do 2016 Festival Beleza Amazônica.

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